sexta-feira, 4 de maio de 2012

Harley e a camisa de força da tradição

Texto retirado do blog: Old Dog Cycle



Desde que Willie G. salvou a Harley Davidson, ele e seu departamento de marketing instauraram a ditadura da tradição. Ela dita o que é ou o que não é uma Harley, e como são as pessoas que andam nela. Junto dela, veio um mito que não existia até então. Um mito tão enraizado entre a atual geração de proprietários, que ninguém mais ousa questionar, mesmo sem saber porque ele existe. Ele é repetido diversas vezes em conversas de moto, tanto para justificar quanto para criticar a postura da Harley. Você já o ouviu, e talvez até já o tenha repetido (como eu já fiz um dia):

"Harley e velocidade não combinam."
Como diriam os americanos:
BULLSHIT.

O primeiro recorde da Harley foi em 1921, quando uma de suas motos manteve uma média de 160km/h em uma board track, em uma época onde os carros suavam para chegar aos 80km/h. Duas décadas depois, a Harley estipulou mais um recorde de velocidade, atingindo 219 km/h em Daytona Beach.

Nas arrancadas, HDs preparadas estão sempre entre as campeãs desde o final da segunda guerra mundial. Aliás, nessa mesma época surgiram as bobbers. Cansados de perder nas ruas para as motos britânicas, os americanos começaram a depenar suas motos, para poupar peso, além de preparar os motores. Eram os hot-rods das motos.

Nos anos 70, a Harley ganhou o título de moto mais rápida do mundo em Bonneville, acelerando a mais de 427km/h, um recorde que permanece até hoje para a categoria.

Em 1988, a Harley chegou a ter uma equipe de superbike, que competiu por mais de uma década com a VR1000. A equipe se tornou competitiva e conquistou vitórias no final dos anos 90, mas foi desativada logo em seguida.

Competições são uma excelente maneira de se desenvolver novos produtos e aperfeiçoar tecnologia. É lá que os engenheiros precisam se superar e romper limites, com novas idéias que serão aplicadas nos modelos de série. Mas hoje, a participação da Harley nas pistas se resume a copa XR1200 Vance and Hines, e aos times independentes de arrancada.


Mas se a Harley sempre teve tradição em competições, o que aconteceu?


Entram em cena, os anos 80.

Quando Willie G. e seu departamento de marketing salvaram a empresa da falência usando a imagem do motoqueiro fora da lei, eles decidiram apagar toda as outras tradições da marca e a substituíram pela deles. Pelo que eles acreditavam que o público aceitava como sendo uma "verdadeira" Harley.


O mais curioso, é que essa era a mesma Harley que havia tentado ficar longe da imagem do outlaw durante toda a sua existência.Pode perguntar para Sonny Barger dos Hells Angels, que ficou tão puto com essa história que hoje em dia anda de Victory. Sim, os easy riders e os motoqueiros fora da lei eram uma grande parte da história da Harley, e ajudaram a criar sua imagem. Mas antes de Willie G., essa era apenas uma parte dela. Depois dele, era como se fosse a única.

Hoje ninguém mais parece lembrar que as Harleys eram a moto de escolha dos policiais pelo desempenho, e não pela imagem (hoje, só um departamento nos EUA as usam em todo o seu efetivo). De que elas corriam e batiam recordes em Bonneville. De que haviam clubes que competiam para ver quem tinha a moto e o uniforme mais impecável. Que pessoas modificavam suas WLAs para dar a volta ao mundo de moto. De que elas se orgulhavam de serem silenciosas.

Tudo isso foi deixado para trás para associar a marca apenas com a imagem do motoqueiro fora da lei, coisa que nunca havia sido feita nas oito décadas anteriores. E deu certo. Muita gente comprou esse estilo de vida. Um diretor da HD ficou famoso por dizer que "nós vendemos a possibilidade de um contador de 43 anos se vestir de couro e dar medo nas pessoas."

Eu não caio mais nessa. É preciso deixar claro que uma coisa é ter tradição, outra é parar no tempo.

Não dá para querer que a Harley fique fazendo apenas releituras de sucessos do passado, isso vai acabar com a marca. É preciso fazer com que ela percorra novos caminhos, sem perder o seu espírito. A V-ROD e a XR1200X, por mais que tenham torcida contrária, são ótimos exemplos: seguem a tradição, mas são uma passo a frente. Em 20 anos, serão consideradas clássicos. Pois é, ninguém parece lembrar que a Sportster foi uma moto moderna para a época, e hoje ela só é um clássico porque já foi novidade um dia. A Triumph foi esperta e percebeu isso. Ela ressurgiu das cinzas sem esquecer quem foi, e hoje vende a Bonneville ao lado da moderníssima Speed Triple.


Mas a ditadura da "tradição" que o marketing inventou, e que muita gente comprou, não permite que a marca trilhe outros caminhos. É uma pena, e quem sai perdendo somos nós. Já pensou ligar a TV para assistir o MotoGP no domingo e ver uma Harley-Davidson dar um pau em uma japonesa? Isso é uma daquelas coisas que não teriam preço.


Porque a única tradição que a gente não pode deixar a Harley mudar nunca, é a de fazer grandes motos. Essa sim vale a pena brigar para sempre ser mantida.

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